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Voz de Judas


Manhã

Era um homem estranho na cidade, contando passos, janelas e pessoas sem rosto.

Habituado a procurar os cheiros e as cores das plantas, atravessava a praça e se prostrava em um banco de madeira, à margem do caminho revestido de pedras. Àquela hora matinal toda a gente migrava em variadas direções, como se algum chamado inaudível guiasse as pessoas a lugares distantes e misteriosos. Estudantes passavam com um frescor incompreensível nos cabelos, ainda molhados, falando línguas estranhas. Ao largo havia ônibus, carros, mais ônibus e gente, numa procissão que se unia e se dispersava em revoluções e revoadas de andorinhas.
O homem ansiava por conhecer os pensamentos e os destinos daquelas pessoas que, dia após dia, ressurgiam com o sol da manhã. Vinham acompanhando os pássaros que povoavam as copas frondosas e os galhos retorcidos das árvores.
Como em sonhos, o mundo daquele homem se encerrava nos limites da praça. Era sua ilha, seu refúgio de Robinson Crusoé no meio da grande cidade.
O costume já lhe capacitara a reconhecer muitas vozes, uniformes e trejeitos, mas nunca os olhares, pois, como já se disse antes, a multidão não tinha rosto. Assim o homem discernia as pessoas dos cães vadios e dos pássaros, já que esses possuíam olhos e feições muito evidentes. No seu raciocínio de poucas forças não procurava explicação para o fenômeno. Apenas imaginava que essas criaturas, ao contrário dos homens, espelhavam sua alma e existência erráticas.

 



Escrito por Jairo Oliveira Ramos às 00h21
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Lula nos braços do polvo

Cansado de rever as negociatas, malas e falas da política, que invadem a televisão, os jornais e a internet, resolvi falar do nosso velho mundo animal. O estranhamento das relações humanas, não raramente, me remete às areias da Costa do Esqueleto e do Kalahari, aos pedregulhos de Atacama, às folhagens de Bornéu e Sumatra, às águas perdidas do delta interior do rio Okawango e às profundezas dos mares, onde estão os bichos.

Não poderia deixar de observar que, sendo os homens também animais, muitas vezes a realidade dos documentários e das enciclopédias se confunde com o nosso mundo de bestas pensantes. Assim, considerando que existem mais coisas entre o céu e a terra do que imagina nossa vã biologia, passo a comparar dois intrigantes seres que povoam nossos mares: o polvo e a lula.
A Lula, como o polvo, é um molusco cefalópode - daqueles bichos estranhos que têm os pés na cabeça. Embora pertençam a espécies diferentes, guardam entre si algumas semelhanças visíveis: fazem corpo mole e habitam o mesmo ambiente Marinho, como retratam fielmente as novelas da rede Globo. Esse fato indica uma origem ancestral comum, ainda que remota. Não existem provas conclusivas, mas alguns estudiosos desconfiam que a lula veio do polvo e evoluiu para uma espécie diferente, esquecendo-se rapidamente das suas origens.
Com a intenção de facilitar o entendimento da matéria, especialistas catalogaram algumas das características físicas e sociais da lula:
1. tem cabeça mole, mas não é tão burra quanto parece;
2. quando acuada expele uma tintura preta, semelhante a uma "cortina de fumaça", que confunde seus inimigos, fugindo com grande agilidade das situações de perigo;
3. tem a capacidade ímpar de meter-se em lugares muito apertados, saindo sempre incólume;
4. possui a habilidade extraordinária de alterar suas formas rapidamente, mimetizando-se com o ambiente em que se encontra e evitando a ação dos predadores;
5. tem a capacidade de meter os pés pelas mãos;

6. não sabe nadar, mas rasteja muito bem, rente ao lodo;

7. ambiciona dominar o ambiente em que vive, mas não consegue estender seus tentáculos além da própria toca.

A espécie, ocorrente no Brasil, tem parentes próximos nas Américas. Acredita-se que seja uma subespécie de animais encontrados nos mares de Cuba e da Venezuela. Além disso, descobriu-se, recentemente, um outro animal vindo do polvo, com semelhante aparência, ambição e estupidez, vivendo em lagos do altiplano boliviano.

Apesar das diferenças existentes entre a lula e o polvo, verificou-se que, a cada período de quatro anos, nos meses que antecedem outubro, a lula tende a relembrar seu passado remoto, lançando feromônios nas águas turvas e cortejando o polvo para um acasalamento híbrido e estéril.



 Para saber mais sobre:

1. Moluscos cefalópodes:

http://www.portalbrasil.net/educacao_seresvivos_invertebados_moluscos.htm

2. Lula: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lula

3. Polvo: http://pt.wikipedia.org/wiki/Polvo
 

 



Escrito por Jairo Oliveira Ramos às 07h09
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 Diretamente dos arquivos do DOPS: o governador de São Paulo, Cláudio Lembo, fugiu da repressão do regime militar trabalhando como artista. Atuou no programa Vila Sésamo, fazendo pontas no Muppet Show como "Sam the Eagle". Atualmente faz papel de palhaço, fugindo da repressão do PCC e do Comando Vermelho.



Escrito por Jairo Oliveira Ramos às 07h50
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O papa, Medéia e a Cólquida

Coberto com fulgurantes vestes talares, como um rei que sai às ameias dos castelo, o sumo pontífice  profere discursos de paz e fé, entronizado diante da praça onde se apinha o rebanho de muitas cabeças, reverentes e confusas, com vozes de babel.
Nestes dias atuais quase nada se afigura diferente do papa medievo, que promovia a partida de cavaleiros com seus estandartes, trombetas e lanças. Mas a imagem distante ganhou detalhes com o zoom poderoso da imprensa, que nos trouxe a notícia reconfortante de que o papado mudara, alcançando a modernidade pulsante dos nossos dias. Não seria ainda o momento propício para revolucionar os cânones, ferindo tradições como o celibato sacerdotal, a negação do controle de natalidade e a indissolubilidade do casamento. Conta a revista Istoé, reproduzindo matéria da Newsweek, que o santo padre rompeu com a tradição secular dos alfaiates do Vaticano para se render à moda episcopal de Raniero Mancinelli e às mais badaladas grifes italianas. É o novo sumo sacerdote, com óculos Gucci, sapatos Prada vermelhos e bolsa da moda.
Assumindo pessoalmente a antiga peregrinação dos cruzados, nos dias de hoje, o novo papa deverá levar a palavra católica aos povos do mundo. Falará, na América Latina e na África, da carência de políticas públicas de combate à fome e à pobreza; da necessidade de uma ampla e urgente reforma agrária. Acenará para hordas maltrapilhas ao longe, da janela envidraçada do papamóvel - provavelmente uma nova e reluzente Ferrari vermelha.
Os velhos alfaiates do Vaticano, com sua tradição familiar de séculos a serviço do papado, foram dispensados ao errar o ponto. Não encontraram o tecido maravilhoso que todos admirirariam no torso do rei, ainda que estivesse nu. Dentre as viagens programadas por Sua Santidade, creio que alguma missão secreta deverá buscar as portas da legendária Cólquida, onde se achará o mais cobiçado tecido  para confeccionar tão vistosas e sagradas vestes: o velo de ouro de Jasão.


Para saber mais sobre:
1. A moda do papa:
http://www.terra.com.br/istoe/1894/internacional/1894_papa_fashion.htm
2. Cólquida e o velo de ouro de Jasão: http://pt.wikipedia.org/wiki/Med%C3%A9ia
3. Uma Ferrari para o papa: http://www.esmas.com/noticierostelevisa/internacionales/418792.html
4. O rei nu:http://www.clubedobebe.com.br/HomePage/Fabulas/aroupanovadorei.htm



Escrito por Jairo Oliveira Ramos às 00h01
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