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Amanhã

Não ter você amanhã é repassar todos os filmes eróticos do fundo da estante sem  mudar de canal apressadamente. Depois adormecer livre no sofá, na frente da televisão.
Não ver você amanhã é usar os dois lados do guarda-roupa, encher de revistas a gaveta de
calcinhas e não consertar o chuveiro frio no inverno, ou nem mais inverno existir.
Amanhã, não ter você, é desejar a moça do primeiro andar sem desviar os olhos com  culpa de
ladrão. Dormir até mais tarde e almoçar às quatro, e nunca mais lavar pratos. Permitir que o cheiro de comida enlatada contamine o ar da sala impunemente.
Amanhã, não ver você, é escolher uma mulher na esquina, pelo cheiro ou pela cor. Pagar pelo
sexo fast-food pra não dizer mais nada, nem mais olhar nos olhos.
Não ter você amanhã é arrastar uma sombra pelas ruas e fugir das réstias de sol. Ou nem
mais sol existir.



Escrito por Jairo Oliveira Ramos às 01h57
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                       A cela                     

 

                      Ouça bem, senhor doutor: não sou poeta nem pintor surrealista ou expressionista, porque não vivo à toa nesse mundo de estupor e exclamação. Também lhe digo que não creia em poetas, porque inventam sentir coisas, como se tomassem beberagens de ayahuasca na floresta. O amor que vem de dentro e todas as cores do mundo são ilusões e invenções de tolos para tolos. São as bruxas de Salém.

E veja bem, doutor, que tudo o que está dentro em mim não passa por ninguém mais. A sua caneta e o seu papel servem para quê? Digo que não servem para descrever nem catalogar a minha natureza, mas para aumentar a dose da pílula – aquela que ameniza os sentidos e me faz cambalear e dormir como animal no zoológico.

Não desvie o olhar de mim quando estiver falando. Eu sou o que sou – e não sou nenhum deus ou profeta da Bíblia, do Alcorão ou da Torá.

Acredite: não sou um daqueles loucos que perambulam soltos por esses corredores, nem um daqueles outros dementes, isolados em celas, que sonham com o vôo magnífico da torre para os sóis e luas brancas, com asas de Ícaro e de Ismália.

Desculpe se o doutor não reconhece a poesia que tanto me repulsa, com seus simbolismos idiotas. Desconfio, ainda mais, que não sabe da mitologia ancestral – o que é perdoável para os homens de hoje em dia. Sendo crente ou ateu, da forma que mais convenha a si ou à ciência, como poderá um homenzinho distinguir Noé de Gilgamesh, com seu dilúvio babilônico, se a mesma água parece ter engolfado a amaldiçoada terra em tempos esquecidos?

Sendo louco, como diz o doutor que sou – e o que escreve essa caneta não há borracha que apague –, posso falar que está à minha frente um homem lascivo... – não, não se levante ainda – um homem lascivo que só pensa, na solidão da noite, em despir mulheres e fingir desinteresse ao apalpar seus peitos intumescidos e suas valvas de conchas entreabertas.

Fique mais algum tempo nessa cadeira – como estou, sem escolha possível, há tantos anos nesta cela imunda – e ouça a minha verdade, sem nenhuma palavra de sua caneta-tinteiro.

Algum dia lhe disse que posso voar por sobre a cidade? Pois lhe digo que tenho meios e vigor para sobrevoar todo o mundo, tanto quanto, ou mais agora que no início de tudo. E fique bem claro que não vou seguir a danação humana de Ícaro, porque um leve bater de asas me levaria daqui à Cólquida, onde ainda estão minhas irmãs harpias.

O senhor doutor, homem da ciência e das curas, algum dia já imaginou que os loucos são  os verdadeiros sábios deste mundo de fracos? Que as tarjas pretas dos seus remédios são vendas nos olhos de quem vê o que de fato existe à sua volta?  Ah, doutor... é essa a pequenez dos homens e a ruína da terra.

Toda memória se dissipa nesse mundo de bestas, ao menor sopro de vento sobre as areias soltas do deserto. Era ainda manhã na história do mundo quando levantavam moais em Páscoa e ritualizavam o fogo em Stonehenge, temendo o poder que assolava plantações. Alguma vez o doutor já pensou sobre as inscrições gigantes do deserto de Nazca, que só podem ser vistas do céu? Era naquele azul que eu voava livre, recolhendo oferendas frescas, ou onde mais houvesse carne e sangue, chegando aos picos gelados das montanhas do Cáucaso, dos Cárpatos e dos Pireneus. Ali alguns valentes cavaleiros resistiram à força das minhas asas e ao calor do meu sopro de fogo.

Mas hoje é a noite lhe que resta, senhor doutor. O seu louco vem de muito andar e rodear a terra antes de apodrecer preso nesta cela imunda. E não me surpreende que um homenzinho não possa compreender como vivem divididas força e impotência dentro dessa pequena casca de insensatez.  

O doutor me veja como uma ninfa de cigarra que viveu sem asas e sem estrilar de voz, por anos a fio, impotente debaixo da terra. Agora chegou a hora. 

Abra mais os seus olhos de espanto, doutor, pois espantar-se é tudo o que lhe resta no mundo. Veja agora o romper vigoroso das minhas costas, o renascer inesperado das minhas asas para o mundo, o meu novo sibilar de imensa destruição.

Foi muito boa a sua companhia, mas tenho que ir ao encontro dos exércitos reunidos em Megido, onde Gog e Magog cumprirão a história escrita. Agora, suponho, sabe que venho do princípio de tudo e estou no espelho das coisas. Sou a áspide no calcanhar, a sombra, a antimatéria e o buraco negro.

Amasse o receituário, doutor, que já não há necessidade de novas prescrições. Agradeço-lhe pela caneta com que me permite vazar-lhe os olhos – não só por maldade quase humana, mas para que não veja que eu estou indo, agora, depois de tantos anos.

Os olhos se acostumam ao escuro do quarto.

 

Ismália (ALPHONSUS DE GUIMARAENS )

http://jornaldapoesia.wordpress.com/2007/06/04/ismalia/


 A epopéia de Gilgamesh

http://www.klepsidra.net/klepsidra23/gilgamesh.htm

Harpias

http://pt.wikipedia.org/wiki/Harpias

Cólquida

http://pt.wikipedia.org/wiki/Argonautas

Moais de Páscoa

http://pt.wikipedia.org/wiki/Moai

Stonehenge

http://pt.wikipedia.org/wiki/Stonehenge

Geoglifos de Nazca

http://pt.wikipedia.org/wiki/Geoglifos

Cigarras

http://www.biomania.com.br/bio/conteudo.asp?cod=3155

Megido e o Armagedon

http://pt.wikipedia.org/wiki/Armagedon

 



Escrito por Jairo Oliveira Ramos às 21h48
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BR-171

Especialistas em políticas públicas e operadores do direito discutem, no âmbito da punição segregativa, se é justa e suficiente a pena  ou se esta, desmedida e insensata, apenas corrompe o criminoso. Concluem os tribunais, de pronto, que o furto de um pote de margarina não produz o mesmo impacto social que o desvio e a lavagem de infindos reais, dólares e euros. Assim confrontadas as disparidades, o vil larápio de supermercado aguarda preso a sua sentença, enquanto o outro, sem suar a camisa além de uma improvável prisão provisória, conserva branco e engomado seu belo colarinho.
Desde tempos imemoriais a justiça vem a cavalo. E continua vindo, a competir com tropeiros e ciganos em estradas de chão batido, cobertas de poeira levantada pelos cascos rotos. O crime, que é mais estiloso e organizado, vem por uma via expressa, asfaltada e bem cuidada, que alcança os mais distantes rincões do país. O moderno discipulado de Arsene Lupin não monta em lombo de mulas, mas se acomoda prazerosamente no estofado de couro de possantes BMW, Ferraris e Mercedes, transitando pela exclusiva BR-171.
Os mais recentes noticiários apresentam autoridades públicas, antes insuspeitáveis, com respingos indeléveis nas barras de suas togas - senão mergulhadas em lama pútrida. Preso, um dos ilustres investigados reclamou, com a razão que lhe empresta o cargo, da superlotação e da simplicidade do cárcere.Lembrou que lhe seria devido o recolhimento a uma "sala de estado-maior".
Penso ter razão o ilustre preso, porque a superlotação é um dos maiores problemas sociais e do sistema prisional brasileiro na atualidade. Mas não falo somente da superlotação dos cárceres, onde se apinham ladrões de camiseta e de casaca. A superlotação está nas ruas, nos plenários e nos gabinetes, que já não comportam a crescente taxa de malfeitores por metro quadrado.
A reclamação é justa, mas não creio que os denunciados e todo o seu séquito de suspeitos necessitem de uma "sala de estado-maior". Precisam, sim, de uma "sala de estado" maior. Infinitamente maior.


Escrito por Jairo Oliveira Ramos às 13h24
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Azul

Cego, sem nenhum dom de Deus ou acordo com o diabo, Amaro desistiu cedo de tocar viola na porta da igreja para correr o mundo. Não esse mundo inteiro, porque para o pobre o mundo é até onde a vista alcança. Modo de dizer.

Já teve mulher dormindo no mesmo papelão, debaixo da marquise,  mas era aquele pobre sem dote que não tinha como segurar esmola grande. Todo mundo sabe que Amaro nunca se importou de dividir o pouco que tinha, no entanto, caneco e mulher ele sempre fez questão de preservar. Também não era homem de esperar em fila.

Num dia mal amanhecido, arrumou a trouxa e seguiu pelo mundo sem destino. Modo de dizer, também, porque destino todo mundo tem, mesmo quando não quer.

Passado um tempo sem prosa e sem calor de corpo, Amaro conheceu uma cadela azul, dormindo na calçada do Bar Abstemia. Era bicho sozinho, não tinha nome ainda, nem sabia das desgraças do mundo. Batizou a infeliz com o nome de Cadelaide, por vingança de certa mulher e porque animal precisa de alcunha para ter importância.

Sonhador que era, Amaro pensou em trocar o tato da bengala pela vista da cadela, mas logo percebeu que cachorro à toa não entende muito de atravessar rua.

Agora, logo quando a revoada de mendigos deixa as marquises com o sol nascendo, Cadelaide passeia ciosa do nome que tem, guiando uma matilha de cães sarnentos. O primeiro da fila é Amaro, que não é cachorro nem segue a fêmea pelo cheiro, mas tem lá suas necessidades.



Escrito por Jairo Oliveira Ramos às 02h40
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Distorsion 

Descoberta a musa de Tarsila do Amaral.



Escrito por Jairo Oliveira Ramos às 11h58
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A lucidez de Maria Doida

 

Arranjei um título forte para o causo que eu vou contar que é pra dar mais sustança à conversa. E vamos lá, antes que o dono desse espaço arrependa-se de ter-me dado carta branca.

 

Estava fazendo a costumeira visita anual à minha mãe, que é mãe de Jairo também, na casa onde ela mora há trinta e tantos anos e onde eu vivi parte da minha infância e  toda a adolescência. A campanhia tocou às oito e meia da madrugada e eu fui atender, como se ainda morasse ali. Dei de cara com Maria. Tentei voltar e chamar a dona da casa pra que viesse atender a visita, mas Maria não deixou: “Tá visitando a mãezinha, né!?”

-Ééé...

Ô saia justa! Eu já não a cumprimentava havia muitos anos. Nas poucas vezes que nos cruzamos na vida adulta, eu fingia que não a via ou que não a conhecia e ela fingia que acreditava. Não sei por que fazia isso, mas já tinha virado um costume, sei lá.

Maria desandou a falar e eu fiquei ali, parado à sua frente, sem saber o que dizer, como escapar. Lembrou de coisas que eu já tinha apagado da memória havia muito tempo. “Mas Maria não é doida?”, pensei. Ela me parecia bem mais lúcida que a maioria das pessoas ditas normais.

Maria Doida vive catando lixo de porta em porta na rua em que sempre viveu e onde todos a conhecem. Sobe e desce a ladeira com um saco nas mãos, recolhendo "umas coisinhas" que as pessoas julgam já desnecessárias para si e que ela guarda em casa com muito zelo. Mora só, ninguém sabe onde vive a sua família. Quando sente fome ou sede, pede em uma das casas e quase sempre é atendida. Os moleques não a respeitam, vivem provocando-a e de vez em quando surgem gritarias e xingações ( ou seriam xingamentos? ) de ambas as partes. Nessas horas Maria não tem papas na língua, xinga a mãe de qualquer um dos palavrões mais cabeludos, mesmo que esta mãe seja a pessoa que lhe serviu a única refeição do dia.

Maria falava e eu viajava no tempo. “Baralho, gomo eu estou belho!” Maria pareceu ler o meu pensamento:
- Mas você tá bem conservado! Eu é que tô acabada, olhe pra isso! Também, com a vida que eu levo!
Maria já foi uma menina bonita, alegre, pele morena, cabelos lisos e pretos. Um dia sumiu do colégio, parou de estudar. Falaram, na época, que tava meio tantan. Logo, logo, esquecemos dela, perdemos de vista.

- Bons tempos aqueles! Hoje eu sou só Maria Doida. Mas eu não me acho muito doida, não. Eu tenho juízo. Bem, eu já vou indo, tenho muito o quê fazer. Boa sorte pra você.
- Pra você também, Maria.
Recebeu e agradeceu pelo embrulho que a minha mãe lhe entregou – “obrigada, dona menina!” - e desceu a ladeira, andar incerto, olhos sempre à procura de algo novo para a sua coleção. Os trapos lhe cobriam o corpo precariamente. De longe eu ainda a acompanhava com os olhos, vendo-a gesticulando e falando sozinha, na tarefa interminável que lhe ocupa a vida.

 

Esse foi o caso de Maria Doida. No próximo capítulo, se alguém se interessar, eu posso contar sobre as loucuras de Marta Madruga.



Escrito por Jardel às 14h47
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Abstemia

Era noite alta no Bar Abstemia. Atrás do balcão, zelosamente postado, o barman grisalho limpava e inspecionava os copos vazios, servindo sucos e refrigerantes a alguns poucos casais que, pudicos e sem alarde, comprometiam-se em juras de amor eterno. Outros não ousavam tanto, pois se infligiam votos de não partilhar da carne e da corrupção mundana. Uma música suave de piano atravessava o ambiente escuro e salpicado de luzes giratórias, varando a janela e perdendo-se na frieza da rua, onde se misturava aos sons dos bares dançantes e dos clubes de striptease .

Não se sabe por qual motivo ou desatino o Bar Abstemia funcionava na mesma rua em que proliferavam os pútridos botecos e bordéis, mas ainda assim competia a cada um a sua cota de alistados.

Com o passar do tempo viu-se que o movimento no Bar Abstemia andava escasso, circulando entre os freqüentadores o boato de que a casa iria fechar por falta de pagamento de aluguéis. Tremeram os sinceros abstêmios, certa noite, quando o senhorio apareceu no balcão, ajustando os óculos sobre o nariz que lhe repartia o universo entre bons e maus pagadores. Chegava a hora do despejo aguardado.

À maneira dos filmes de cowboys, cessou a música com um simples olhar do vilão. No mesmo instante, vendo-se desamparados, choraram copiosamente alguns sacerdotes e puritanos, pois lhes faltaria o abrigo seguro no meio da noite.

As negociações sobre a manutenção do Bar Abstemia atravessaram a noite e a rua, para surpresa de alguns, movendo interesses até então desconhecidos. Em discurso formal, o dono do Bar Hipocrisia declarou a grande importância do Bar Abstemia para o bem-estar de toda a coletividade, propondo a criação de um fundo que o mantivesse à custa da caridade de nobres investidores. E tão nobres e benfazejos eram os interesses dos novos patronos que permaneceriam anônimos para a coletividade beneficiada.

As dificuldades foram vencidas e, afinal, a música suave voltou ao Bar Abstemia. Noite adentro, o barman passava em revista seus incontáveis copos límpidos e seus ágeis fregueses, que iam e vinham, cruzando os becos escuros com capuzes negros e olhares tímidos. Reprovavam com veemência os bêbados, as prostitutas e os pedófilos à sua porta.

 



Escrito por Jairo Oliveira Ramos às 14h16
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A ponte, o vão e a horda

Comentário ao artigo "A ponte de Déda", escrito por Gilton Lobo na coluna Caranguejo em Prosa - Cinform.


O colunista do Caranguejo alude à assunção do ex-prefeito de Aracaju, Marcelo Déda Chagas (PT), ao posto de governador de Sergipe. Eleito no primeiro turno das eleições de 2006, Déda suplantou o atual governador João Alves Filho (PFL), candidato à reeleição. A ponte Aracaju-Barra dos Coqueiros, maior trunfo da candidatura de João Alves (veja aqui, no Voz de Judas, o título "O cavaleiro, a ponte e os moinhos de vento"), transmudou-se na ponte de Marcelo Déda para a mudança.
Nestes tempos eleitorais, de corações partidos e de partidos em decomposição, ainda creio
que as idéias possam transformar as visões do mundo - certamente com mais intensidade que os caleidoscópios ou alcalóides psicotrópicos, companheiros da velha trupe psicodélica.
Rebobinando a fita da história recente de Aracaju, até o período de 1975-1979, vejo um
grande agente de mudança na prefeitura da capital. Era um jovem João, quase ninguém, que se opunha à oligarquia da época, moldando a cidade com sua marca de modernidade.
Desde então, muitos anos e alianças políticas se passaram. A história, repetidamente exibida em fita
VHS, mostra sinais de cansaço, enquanto a horda suja vagueia nos vãos das pontes.
Na última campanha eleitoral vimos um duelo de titãs, onde pontes, parques, ciclovias e
viadutos substituíram as clavas e as lanças de antanho. As torcidas apaixonadas clamaram siglas, nomes e números; cantaram loas; escolheram seu campeão.
Agora, passada a turbulência da campanha política local, um vulto novo se agiganta em Sergipe, agitando a
bandeira da mudança. Muitos esperam que, seguindo a tradição dos grandes conquistadores, o governante escolhido rebatize praças e reconstrua Tróia sobre Tróia, em camadas infindas, apagando da memória popular todos os vestígios do ciclope vencido. A história menos recente já mostrou, entretanto, que um reinado forte e duradouro não ignora as sombras do passado nem empala os sátrapas.
Acompanho as esperanças de mudança, mas faço lembrar que o conhecimento ancestral não é de
todo Mao.


Para saber mais sobre:
Mao-Tse-Tung e a revolução cultural:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Cultural_Chinesa
Artigo "A ponte de Déda" (Gilton Lobo) -
http://www.cinform.com.br/cinform.php?ed_caderno=1127411796
Tróias: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tr%C3%B3ia



Escrito por Jairo Oliveira Ramos às 14h17
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Putas de Copacabana, cultas de havana

Li um grande artigo no Caranguejo em Prosa, aquele que tem um link aqui ao lado. Uma ode à ilha de Cuba, a Fidel Castro e às putas de Havana - essas que me fazem lembrar Las muchachas de Copacabana (Chico Buarque/1985). Como não caberia um comentário lá no site do Cinform, e talvez a imprensa oficial da ilha me censurasse, comento aqui o texto de Gilton Lobo.


Admiro a história, a arquitetura e a cultura da terra insular de Fidel Castro, mas temo que, como um país de Alice tropical, a ilha romântica de Cuba seja um mero conto de fardas. Fardas esverdeadas, repletas de galões e divisas.

Jamais se negará o mérito histórico da derrubada de Fulgêncio Batista pela força de umas poucas armas dos homens de Sierra Maestra, entretanto havemos de lembrar que o planeta mudou desde a queda da União Soviética. Em 1957, empenhados nas corridas espacial e armamentista da guerra fria, os vermelhos lançaram ao espaço o primeiro ser vivo. Era a cadela russa Kudriavka, da raça laika, que morreu quatro dias depois, vitimada pelo calor da reentrada. Mas o espaço distante não era o único alvo do ideário político da URSS. Em 1959, sob as bênçãos da potestade vermelha, surgiu na América uma nação laica, destinada a prosperar como vitrine do socialismo. Desde então viveram, supostamente felizes, os nativos da ilha da fantasia. O mundo viu suas medalhas de ouro olímpicas, sua educação soberba e sua medicina surpreedente.
Passados os anos, sobreveio o fim da guerra fria e da polaridade esquerda-direita. Nesse novo contexto, a laica nação
sobreviveu às agruras da reentrada na atmosfera real, superando a malsinada cachorra laika.

Hoje o mundo é outro, mas o homem que humilhou John Kennedy e o serviço secreto americano no episódio da fracassada invasão da Baía dos Porcos, em 1961, ainda resiste. Incansável, apregoa uma resistência que talvez seja apenas a sombra do seu próprio espírito solitário de guerrilheiro.
Cuba perdeu o status de prodígio, expondo hoje em sua vitrine uma política fora do eixo e do mercado, tão
obsoleta quanto seus carros. Suporta, na província de Guatánamo, uma base militar americana que lhe aflige como um corpo estranho. É o inimigo à espreita, invencível como um câncer avançado que, no futuro certo, lhe tomará os canaviais, a Sierra Maestra e a Baía dos Porcos.
Quanto às cultas putas de Havana, nesses nossos dias de exacerbado consumo e de falaciosa
democracia, talvez sobrevivam coloridas e tristes, como num aquário de peixinhos tropicais. Quiçá o ritmo vibrante da rumba represente apenas o encantamento dos corais e dos peixes-palhaço, observando todo o mundo ao redor sem poder ultrapassar a barreira de vidro, transparente e cruel.


Para saber mais sobre:

1. Las muchachas de Copacabana (letra):http://chicobuarque.uol.com.br/letras/lasmucha_85.htm

2. A ilha maravilha das morenas calientes - Por Gilton Lobo: http://www.cinform.com.br/cinform.php?var=1155043139

3. Baía dos Porcos: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ba%C3%ADa_dos_Porcos

4. Revolução cubana: http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_cubana

5. Corrida espacial: http://pt.wikipedia.org/wiki/Corrida_espacial

6. Base naval de Guantánamo: http://pt.wikipedia.org/wiki/Guant%C3%A1namo



Escrito por Jairo Oliveira Ramos às 11h52
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Parábola do padrasto falso.com ( o retorno )

 

Naquele tempo, dizem as más línguas, havia um homem cheio de boas intenções ( dizem também que delas o inferno está cheio ) que, avistando um grande aglomerado de descamisados, desterrados,  desprovidos de qualquer coisa, resolveu intitular-se seu protetor e representante e, para isso, os convenceu a ajudá-lo a subir no pódio. A grande massa, desatenta, desavisada e desmotivada, desperdiçou mais uma vez a oportunidade de fazer valer as suas vontades. Elevaram-no ao posto mais alto, dando-lhe plenos poderes de decisão dos seus destinos. Com o passar do tempo, foram percebendo, desapontados, que os interesses do desarvorado senhor não coincidiam com as necessidades do povo desamparado. Descobriram, tardiamente, que o alto cargo que lhe deram era apenas um degrau, uma ponte para a sua desmedida ânsia de subir. Povos vizinhos, na verdade desertores, desajustados, anjos decaídos, aproveitando-se do desmando que reinava na vila, semeavam a discórdia e a desarmonia, ameaçavam a paz e a tranqüilidade da gente trabalhadora e sofrida. Enquanto isso, o desapiedado incompetente-mor fingia-se de morto, dizia-se auto-suficiente e maquinava, com olhos esbugalhados, uma nova aventura.

 

Moral da história: ???????



Escrito por Jardel às 11h06
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Dona

Sinhá Dona estava só, no alpendre da casa assobradada, cosendo roupa para si mesma. Não cosia para vestir homem de casa, como seria comum à sua idade e posição, nem para aformosear algum filho de faces róseas. As comadres da rua, entre curtos olhares, se compadeciam daquela pobre alma desafortunada.  Filhos, o Senhor não lhos deu, ainda que as ancas largas causassem impressão de ser boa mulher parideira. Marido forte e polido, Deus deu, Deus tomou ainda cedo, por força de uma tosse que não findava. Ficou assim, viúva prendada e bonita de dar pena, nesse mundo de Jesus. Quando fazia doce era para invejar o ponto. Quando cantava, noite adentro, era ternura e desperdiçar de voz, de não ter a quem ninar naquela casa vazia. Só uma criada, forra, cuidava de ocupar os olhos e as ordens de Sinhá Dona. Homem novo não pisava acolá, nem que fosse padre, para que a carne não estremecesse debaixo do luto. As comadres diziam que carne é coisa do maligno, e mulher deixada ou viúva não pode descuidar da saia.
Deus quis assim. Seria uma viúva a mais. Uma alma caridosa na vila, uma beata casta na
paróquia.
Passava as tardes no alpendre, alinhavando e cosendo como uma aranha na teia. Às vezes,
despertando de um sono que parecia tomar-lhe a vida e a graça, levantava os olhos para ver os burros que subiam vagarosos até a rua do comércio, com barris de água e cangalhas abarrotadas de farinha. Meninos brincavam na rua, em meio às poças de lama, entretidos com galinhas e bacorinhos.
Assim foram passando os anos e as novenas, enquanto Sinhá Dona perdia o brilho. Viúva
enjeitada, só no mundo. As roupas que ela cosia eram como um fio de novelo sem fim.
No termo do dia, à luz trêmula da lamparina, Sinhá Dona andava descalça pela casa vazia, 
levantando os olhos para ver nas paredes a sombra dos quadris largos -  sinal da mulher que haveria de ser parideira e senhora de um homem bom.

Apagando os candeeiros, velava por si mesma. Cantava noite adentro, com voz terna, a ninar cunhã que suspirava entre lençóis. 



Escrito por Jairo Oliveira Ramos às 00h59
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Arquibancadas e "olas"

Nesta tarde chuvosa de sábado, entre pífios estouros de foguetes, o sonho verde e amarelo acabou. Acabou cedo, mais uma vez nos pés de Zinedine Zidane e de sua trupe francesa. Para os torcedores mais otimistas, a reconquista da taça do mundo terá sido apenas adiada por mais quatro anos, reservando-se a honraria para uma nova geração de craques do futebol-arte.
Perdida a batalha, recordo-me que a Rede Globo, com o tradicional ufanismo de outra época, iniciou
as transmissões da copa estabelecendo contato entre duas das mais destacadas instâncias de poder no Brasil: o presidente da República e a seleção brasileira. Como era esperado, Lula cometeu mais uma gafe em cadeia nacional ao perguntar se Ronaldo, afinal, estava gordo. Deveria ter sido avisado de que neste país não se chama gordo de gordo, careca de careca ou negro de negro. Com palavras dissimuladas, gordos apresentam sobrepeso, carecas são ligeiramente calvos e negros são morenos. Na mesma linha do discurso politicamente correto, caixa dois é a soma de recursos não contabilizados e deputado é um legítimo representante do povo.
Conforme dita a física, a toda ação corresponde uma reação; e Ronaldo, que não correria o risco de
ser expulso do país - porque não mora aqui nem trabalha para o The New York Times -, insinuou que o presidente bebe muito. Bebe bastante.
Azias passadas, prosseguiram alegremente Ronaldo e o Brasil na Copa, até o momento em que o trôpego
Mercosul foi sumariamente eliminado pela União Européia.
Caiu a seleção, mas nem só de futebol vive essa brava gente brasileira, nos sertões e às margens
plácidas do Ipiranga. Nos lares, bares e alcovas prosseguem os preparativos para as eleições gerais de outubro. Petistas superfaturam shows e inauguram obras, enquanto tucanos e aves migratórias de menor porte voam rasteiro. Na televisão, à venda como remédios milagrosos, as soluções de governo vêm diluídas em excipientes com cores e aromas de laranja e framboesa. Políticas públicas inviáveis, cuidadosamente embaladas para presente, são expostas no horário nobre, entre propagandas de Coca-Cola e de cerveja que desce redondo. Enquanto estamos redondamente enganados a respeito do dinheiro público que escoa pelos valeriodutos, o chefe de estado insiste em alegar que nada sabe das maracutaias palacianas. Certamente bebe para esquecer.
À semelhança de uma seleção de salto alto, perdida no meio de uma partida de futebol, o governo
chuta todas as bolas para fora e fica à espera de uma prorrogação desmerecida. A soma de erros, acumulados ao longo de todo o tempo regulamentar de quatro anos, causa a desconcertante impressão de que o país do futebol corre, desgovernado, ladeira abaixo. Neste dia, diante da frustração que nos causou, mais uma vez, o campeonato mundial de futebol, relembro aquela videoconferência referida no início para dela extrair três conclusões:
1. Ronaldo está gordo;
2. o dirigente máximo do país bebe muito;
3. o kaiser que bebe não deve dirigir.
Ao fim, na terra do futebol, torço pela "ola" nas arquibancadas e pelo justo xingamento proferido contra os maus
jogadores e contra o juiz ladrão.


Para saber mais sobre:
1. Videoconferência com a seleção brasileira:
http://noticias.uol.com.br/bbc/2006/06/08/ult2363u6849.jhtm
http://esporte.uol.com.br/ultimas/efe/2006/06/09/ult1777u47076.jhtm

2. Tentativa de expulsão do correspondente do The New York Times:

http://noticias.uol.com.br/ultnot/afp/2004/05/12/ult34u95169.jhtm

3. Excipiente: https://www.anvisa.gov.br/medicamentos/glossario/glossario_e.htm

4. Brasil fora da copa 2006:

http://copa.esporte.uol.com.br/copa/2006/ultnot/brasil/2006/07/01/ult3505u645.jhtm

5. PT e superfaturamento de shows: http://clipping.planejamento.gov.br/Noticias.asp?NOTCod=265446

6. Juiz ladrão: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos/asp1707200292.htm

7. Torcidas e 'olas': http://www.dw-world.de/dw/article/0,2144,1624445,00.html



Escrito por Jairo Oliveira Ramos às 21h21
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Sonata

Naquele dia ouviria um disco de Chopin, percutindo a borda da mesa com as pontas dos dedos e bebendo vinho seco. Resignara-se em ser pianista sem teclas e sem som, isolado  na medida própria de sua mediocridade. Nehuma platéia bêbada de bar dançante voltaria a ouvir seu repertório morno e seu bis cansado.
Aproximando-se da janela, ainda incomodado pelo excesso de luz, olhou o céu vazado entre as persianas
empoeiradas para ver um pouco das manhãs de sol que o sono lhe roubara. Talvez fosse abril.
Na desordem do apartamento, entre pautas riscadas e meias de dançarina, conferiu a lista de compras que não
faria para o consumo parco da semana.

Morreria antes da sexta-feira. Era naquelas noites sem fim que tocava à meia-luz de um clube qualquer, envolvendo com música as evoluções da mulher esguia e nua. Enebriado, sentia o cheiro do seu sexo na lingerie preta jogada sobre o piano.

Morreria naquele dia. Tinha a certeza dos crentes e a fé dos ateus. O público, ansioso pelo número principal, aglomerava-se impaciente na calçada. Enfim atenta, a platéia veria seus últimos dedilhados no espaço vazio, sem piano, ao som de uma nota derradeira de Chopin. Na pauta, uma fermata rabiscada com lápis delineador. Na rua, uma primeira e última ovação. Aplausos de pé.

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Para saber mais sobre fermata: uma nota sustentada indefinidamente ao gosto do executante. Na prática pode
aumentar ou reduzir a duração da nota, mas é mais freqüente o uso para prolongar a nota, principalmente em cordas. Também pode ser usada para indicar uma cadenza. http://pt.wikipedia.org/wiki/Simbologia_da_nota%C3%A7%C3%A3o_musical



Escrito por Jairo Oliveira Ramos às 00h04
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Incitatus, Evo Morales e o Tratado de Tordesilhas

Uma definição haveria de ficar escrita, sempiterna, no quadro da história: o Brasil é a violação de Tordesilhas. Persiste assim, transgressor e arredio, desde que o anseio desbravador dos bandeirantes deslocou para as matas interiores a linha divisória das possessões portuguesas e espanholas. A lei e a ordem foram canibalizadas.
Avançando continente adentro, a diplomacia do Barão do Rio Branco anexou territórios novos, acrescendo Amapá, Acre, Santa Catarina e Paraná. Ainda mais se esquecia a linha remota de Tordesilhas, com a impressão do novo e definitivo mapa político do Brasil.
Passado um século desde a aquisição do Acre, o presidente boliviano, Evo Morales, revira com zelo as gavetas da burocracia. Esforçando-se sobremaneira, não encontra papel que se assemelhe a alguma escritura de compra e venda do território boliviano. Por fim, atônito diante da inexplicável ausência do amarelado e carcomido documento, vem a público declarar que o território do Acre fora trocado por um cavalo.
Pasma o povo da Bolívia, pois não há registro de que o cavalo fosse nobre e imortal como os valorosos Bucéfalo, de Alexandre, ou Incitatus, de Calígula.
Certificada a desproporção do preço, faz-se justa  a encampação de uma refinaria da Petrobras e dos seus contratos de exploração de hidrocarbonetos. O presidente Lula observa e aprova o ato de soberania.
Quase ao mesmo tempo, como num concerto, novo ato de poder faz parar a megacidade de São Paulo. Agora todos sabem que o Brasil possui organização de primeiro mundo, onde abundam filas, ônibus, matrizes e sucursais do CV, PCC, PM, PT e PSDB. O caos é uma experiência controlada em tubos de ensaio e em aceleradores de partículas. A fissão do núcleo social é orquestrada e detonada por telefones celulares de última geração, fazendo parar a civilização estabelecida nas clareiras da mata. A um toque pára, a um novo toque recomeça e evolui na passarela do samba.
Confirmando-se a nova história da distribuição de cavalos e da desproporção dos preços, é razoável acreditar que outras encampações virão. Por decretos soberanos perderemos a amazônia, Amapá, Acre, Santa Catarina, Paraná e a binacional Itaipu.
O povos andinos, herdeiros de Espanha, reclamarão seus quinhões. O Brasil, afinal redimido na história, terá um novo tratado e uma nova linha de Tordesilhas. A oeste nascerá um território andino-amazônico, de língua espanhola; a leste será criado um estado independente de língua portuguesa, governado pela maior expressão do poder na atualidade: o Primeiro Comando da Capital.


Para saber mais sobre:
1. As conquistas territoriais do Barão do Rio Branco:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Bar%C3%A3o_do_Rio_Branco

2. Incitatus: http://pt.wikipedia.org/wiki/Incitatus
3. Bucéfalo: http://pt.wikipedia.org/wiki/Buc%C3%A9falo
4. Tratado de Tordesilhas: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tratado_de_Tordesilhas
5. Telefones celulares e rebeliões em São Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u121614.shtml
6. O Acre por um cavalo: http://www.estadao.com.br/ultimas/economia/noticias/2006/mai/12/194.htm



Escrito por Jairo Oliveira Ramos às 23h30
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Manhã

Era um homem estranho na cidade, contando passos, janelas e pessoas sem rosto.

Habituado a procurar os cheiros e as cores das plantas, atravessava a praça e se prostrava em um banco de madeira, à margem do caminho revestido de pedras. Àquela hora matinal toda a gente migrava em variadas direções, como se algum chamado inaudível guiasse as pessoas a lugares distantes e misteriosos. Estudantes passavam com um frescor incompreensível nos cabelos, ainda molhados, falando línguas estranhas. Ao largo havia ônibus, carros, mais ônibus e gente, numa procissão que se unia e se dispersava em revoluções e revoadas de andorinhas.
O homem ansiava por conhecer os pensamentos e os destinos daquelas pessoas que, dia após dia, ressurgiam com o sol da manhã. Vinham acompanhando os pássaros que povoavam as copas frondosas e os galhos retorcidos das árvores.
Como em sonhos, o mundo daquele homem se encerrava nos limites da praça. Era sua ilha, seu refúgio de Robinson Crusoé no meio da grande cidade.
O costume já lhe capacitara a reconhecer muitas vozes, uniformes e trejeitos, mas nunca os olhares, pois, como já se disse antes, a multidão não tinha rosto. Assim o homem discernia as pessoas dos cães vadios e dos pássaros, já que esses possuíam olhos e feições muito evidentes. No seu raciocínio de poucas forças não procurava explicação para o fenômeno. Apenas imaginava que essas criaturas, ao contrário dos homens, espelhavam sua alma e existência erráticas.

 



Escrito por Jairo Oliveira Ramos às 00h21
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